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  Brasil, 4 de Fevereiro de 2012
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Edição 22 - Entrevista

 
Rubens Medrano
 

O futuro da distribuição

Marcos Mila
 

Rubens MedranoEm sua terceira edição, encontro discute os caminhos do setor de distribuição. O 3º Encontro Brasileiro das Empresas de Distribuição de Produtos Químicos e Petroquímicos (Ebdquim 2006), que acontece entre 15 e 19 de março de 2006 em Porto de Galinhas, em Pernambuco, terá como tema “Distribuição de Produtos Químicos e Petroquímicos - Tempo para Reavaliações”.

Promovido pela Associquim/Sincoquim (Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos/Sindicato do Comércio Atacadista de Produtos Químicos e Petroquímicos no Estado de São Paulo), o evento vai reunir representantes do setor, que terão a oportunidade de partilhar experiências nacionais e internacionais com palestrantes que abordarão variados assuntos relativos ao setor.

Nesta entrevista, o presidente da Associquim/Sincoquim, Rubens Medrano (foto), adianta um pouco do conteúdo a ser discutido, como experiências já implementadas em outros países e que podem ser trazidas para o Brasil, além de lembrar temas já abordados nos eventos anteriores, mostrando os progressos e reavaliações.

Para Medrano, o Ebdquim trará um rol de palestrantes que ajudarão o desenvolvimento do setor no Brasil com as suas experiências e seus conhecimentos. “A função da Associquim não é coercitiva, ela induz cada empresário a tomar a decisão que melhor lhe cabe. E, para tanto, é preciso ter conhecimento dos problemas, acertos e soluções, o que permite errar o menos possível. É necessário que o empresário de distribuição se dispa de alguns dogmas do passado e venha a adotar os novos paradigmas, estando aberto para o que está acontecendo no mundo e sabendo para onde nós temos que caminhar para evitarmos os erros do passado, que levaram ao desaparecimento de muitas empresas.”

Latin Chemical - Quais as principais novidades no 3º Ebdquim?

Rubens Medrano - Em primeiro lugar, devemos destacar a consolidação do Ebdquim. Nós fizemos o primeiro com uma série de preocupações, fomos para o segundo e vamos realizar agora o terceiro. Esse é um ponto muito positivo, porque ele se firma como um evento da distribuição, consolidando todo aquele trabalho que vem sendo feito em termos de Prodir (Programa de Distribuição Responsável), com a nossa interação junto a entidades internacionais. Continuamos com aquele foco principal do primeiro Ebdquim, que é a interação entre a distribuição e toda a cadeia produtiva. Alguns temas já foram abordados antes, mas nós os retomamos, mostrando o que evoluiu nesse período. E, também, retomamos essa conscientização, essa abertura de diálogo entre os produtores e nós, distribuidores, além de uma abordagem sobre como podemos melhorar a nossa produtividade.

Latin Chemical - Esse encontro também servirá para reavaliações?

Medrano - Isso é muito importante. O setor de distribuição, num período de cinco anos, fez investimentos muito fortes em instalações, em programas de gestão e qualidade e até em pessoal. Eu comparo essa situação com um avião, que precisa de todas as forças dos motores para sua subida e, depois, tem que planar um pouquinho para retomar suas forças e seguir viagem. Esse é o ponto da distribuição, neste momento nós temos que começar a focar muito mais o coletivo do que o individual. Acho que chegou a hora de o setor ter muitas bandeiras.

Latin Chemical - O que será discutido em torno dos trabalhadores do setor?

Medrano - Uma questão que não foi focada pelo Prodir, que é a da atuação do trabalhador dentro da empresa, dos cuidados que se deve tomar e da assistência para com o mesmo nos casos de alcoolismo, drogas e coisas do tipo. Assuntos bastante delicados, que nós temos de abordar de uma forma bem profissional e responsável. A direção da Dupont Performance Coatings, empresa consumidora, concordou em estar presente e levará a sua experiência na questão de segurança do trabalhador, de novas técnicas, de novos cuidados, porque ela é a fornecedora da indústria automobilística, que tem sido uma das grandes precursoras em cuidados com o meio ambiente.

Latin Chemical - A avaliação de riscos também é outro tema?

Medrano - Exato. Nós vamos discutir a mensuração do setor com respeito a crédito. Devido à retração de margens, é muito importante que o setor também se conscientize da avaliação dos seus riscos, porque isso pode criar uma situação - se houver uma inadimplência muito forte e com as margens com que atuamos - que pode prejudicar o setor.

Latin Chemical - Existe uma estimativa da inadimplência, hoje?

Medrano - A inadimplência está dentro de níveis toleráveis. Mas, pelo menos o que tem sido uma constante na minha administração, é não esperar uma coisa acontecer para somente depois tomar providências. Estamos sempre procurando estar adiante, trazendo aos nossos associados aquilo que antevemos como sendo os futuros problemas ou futuros assuntos que teremos que abordar. Esse assunto de avaliação de riscos é muito importante, não só para o setor de distribuição em si, mas para os fornecedores da distribuição. No passado, nós tivemos problemas desse tipo com a distribuição. E ele não se resume a uma empresa, acaba afetando muito o setor, que depende da credibilidade, da confiabilidade. Temos que ter um setor não somente equipado, que esteja perfeitamente apto a prestar um serviço, mas que demonstre aos seus fornecedores que é sólido e que oferece uma tranquilidade aos mesmos em termos de crédito.

Latin Chemical - Como está o Prodir?

Medrano - Está surpreendente. Eu não esperava realmente a receptividade que estamos tendo. A Associquim recebeu 11 novos associados em 2005 e tudo por causa do Prodir, que hoje está consolidado. Fizemos em novembro um workshop sobre a Associquim/Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) para mostrar os resultados do grupo de trabalho que foi formado entre as duas entidades para podermos trabalhar em harmonia nos programas de Atuação Responsável e de Distribuição Responsável, evitando duplicidade de esforços e de gastos, visando o interesse coletivo. Tivemos também grande receptividade por parte dos órgãos ambientais. Temos sido convidados para participar de grupos de trabalho, dar nossas opiniões. Todos já se conscientizaram da importância do Prodir. Os distribuidores estão vendo que ele veio para fazer uma série de melhorias.

A mentalidade do empresário de distribuição mudou, fazendo com que ele deixasse seus dogmas como dono de empresa para pensar um pouco mais como acionista.

Latin Chemical - A Associquim sempre teve relacionamento muito estreito com outras associações internacionais. Como está esse relacionamento?

Medrano - Essa foi uma das nossas primeiras metas com as entidades congêneres, não só no âmbito nacional como internacional. Começamos no âmbito nacional, onde temos relacionamentos excelentes, temos um grau de confiabilidade, de abertura e de diálogo com todas as entidades que fazem parte da cadeia produtiva. Quanto às entidades internacionais, nós somos membros da ICCTA (International Council of Chemical Trade Associations) e isso nos abriu as portas para uma série de conhecimentos, de troca de informações com outras entidades mundiais. Hoje, o Brasil está perfeitamente capacitado e o nosso setor de distribuição está no mesmo nível do de outros países. Em termos de conhecimento, o mundo hoje está globalizado, as informações estão disponíveis em tempo real e todos os nossos conhecimentos, mesmo sobre problemas que ainda hoje não nos atingem, mas que poderão futuramente nos atingir, nós trazemos junto com as soluções e procuramos divulgar para os nossos associados. Esse relacionamento é muito importante e nesse Ebdquim uma das grandes metas será integrar também a América Latina. Na região, não são todos os países que têm entidades e nós vamos procurar fomentar a divulgação do Prodir e a formação dessas entidades, a fim de que possamos discutir os problemas comuns. Hoje, o mundo se divide em blocos. Apesar de a América Latina e o Mercosul terem algumas dificuldades, terem diferenças, num futuro bem curto a região atingirá seus objetivos. E nós não poderíamos nos omitir e ficar numa situação de espectador. Temos que participar, dialogar, e é isso que faz da Associquim uma entidade líder, com a sua experiência de 45 anos.

Latin Chemical - O Brasil é um grande país, com uma dificuldade de infra-estrutura do mesmo tamanho. Na sua opinião, o que pode ser feito para melhorar essa infra-estrutura?

Medrano - O problema da infra-estrutura cabe ao Estado, mas infelizmente ele tem hoje as suas despesas de custeio, que não permitem o pagamento dos juros e investimentos. Criaram as famosas PPPs (Parcerias Público Privadas) e o que nós precisamos é regulamentar onde a iniciativa privada pode investir. Mas para investir tem que haver garantias, regras definidas. Hoje, o nosso sistema portuário é arcaico, principalmente o Porto de Santos. Infelizmente o Brasil, na década de 1950, deu preferência ao transporte rodoviário, em detrimento do transporte ferroviário. E um país com dimensões continentais como o Brasil não pode se descuidar do transporte ferroviário e também do transporte fluvial de cabotagem. O caminhão deveria ser usado para pequenas distâncias. Esse é um trabalho que nós temos que recuperar e que esperamos que o novo governo se preocupe bastante na adequação das suas despesas de custeio, no âmbito dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a fim de que possa destinar recursos para a infra-estrutura sem aumentar a carga tributária, que já atingiu seu limite máximo.

Latin Chemical - Como o senhor analisa as questões da desoneração e da queda dos juros?

Medrano - Eu creio que as nossas autoridades econômicas e o Banco Central cometeram uma falta de diálogo. Enquanto nós víamos o Ministério da Fazenda tentando gerar superávits fiscais, por outro lado vimos a política do Banco Central aumentando os juros. Então, a situação é que se economizava numa torneira de três quartos e se tinha juros em outra torneira de uma polegada. Esse dinheiro não vem da produção, é um dinheiro que infelizmente vai para o setor financeiro, que já está estruturado, um setor que não gera empregos, ao contrário do setor industrial e do comercial. Isso é um esforço de Hércules, um aumento de impostos, PIS e Cofins na importação. Isso tudo não é suficiente para pagar o serviço da dívida. O dinheiro sai de entidades produtivas para fins improdutivos. A redução de juros tem que haver, nós não temos uma inflação de demanda. A situação só vai se resolver se continuarmos gerando superávits fiscais, mas não à custa de aumento de impostos e sim pela racionalização dos custos do governo.

Latin Chemical - O crescimento está mais baseado em exportações. E o mercado interno?

Medrano - Nós temos um mercado interno de quase 190 milhões de habitantes para o qual precisamos dar atenção. Outra questão que teremos de corrigir é que, hoje, a exportação, com muita justiça, é desonerada de impostos, porque nenhum país exporta impostos. Mas, por outro lado, o mercado interno, que já vem sofrendo uma situação de estagnação ou redução, acaba sendo onerado com uma carga tributária muito grande. É preciso desonerar o mercado interno para que ele possa reagir.

Latin Chemical - Quais as palestras de destaque para o Ebdquim?

Medrano - Além do painel entre produtores e distribuidores, vamos discutir a questão do uso correto dos solventes no ambiente de trabalho, a proteção do trabalhador. Estamos cada vez mais estreitando o diálogo entre o setor privado e as autoridades governamentais no que se refere à legislação sobre a nossa matéria. Estamos trazendo também o sócio da empresa suíça DistriConsult, Marc Fermont, que hoje é considerado um dos grandes experts em estratégias de distribuição de produtos químicos e petroquímicos, que nos contará algumas experiências e o seu ponto-de-vista sobre o que está mudando na distribuição em termos mundiais, que serão muito importantes para nós e para que se defina como deve caminhar o Brasil nesse sentido. Temos também a questão da credibilidade do Prodir, que é feito por uma entidade independente, e traremos representantes de outros países que estão atuando nessa área. Vamos abordar ainda uma questão que esperamos nunca venha a nos atingir, que é o terrorismo, mostrando o que tem sido feito nos Estados Unidos e Europa em torno da comercialização de produtos químicos e de matérias-primas que possam vir a ser utilizadas na confecção de armas.

Latin Chemical - O foco é discutir situações que possam vir a acontecer?

Medrano - Quando se vai para um evento desses é preciso ter a mente aberta. Esse é um ponto muito importante. O empresário tem que entender que ele vai ter durante dois dias, num único local, palestrantes nacionais e internacionais do mais alto nível e, se ele fosse colher essas informações uma a uma, seria preciso dispor de muito mais tempo e dinheiro. E o Ebdquim traz todo esse rol de palestrantes com as suas experiências e seus conhecimentos. A função da Associquim não é coercitiva, ela induz cada empresário a tomar a decisão que melhor lhe cabe e, para tanto, é preciso ter conhecimento dos problemas, acertos e soluções, o que permite errar o menos possível. É necessário que o empresário de distribuição se dispa de alguns dogmas do passado e venha a adotar os novos paradigmas, estando aberto para o que está acontecendo no mundo e sabendo para onde nós temos que caminhar para evitar os erros do passado, que levaram ao desaparecimento de muitas empresas. Estamos deixando as tardes livres, não só para contatos pessoais entre os distribuidores, mas também para, no caso de dúvidas, estender mais os assuntos com os palestrantes e trocar pontos de vista. A intenção é tornar o evento sempre o mais proveitoso possível.

Latin Chemical - Essa conscientização melhorou depois que os Ebdquims começaram a acontecer?

Medrano - Com certeza. Eu diria que, se eu tenho que atribuir um mérito à Associquim e à sua diretoria, é o de mudar a concepção, esse modo de pensar do empresário do setor, trazer novas idéias e uma abertura do diálogo para mostrar que ele tem que se adaptar a uma série de exigências e abrir a sua mente para poder se tornar um empresário vitorioso. Dos fundadores da Associquim, hoje nós só temos três empresas operando, o que mostra que muita gente saiu do setor. E eu não gostaria que isso ocorresse. Nos Estados Unidos e Europa existem empresas com 150 anos de atividade. É importante que o setor de distribuição se consolide, que se aceite essas melhoras, que se faça um nivelamento por cima e não pelas nossas deficiências. Nesse ponto, o empresário evoluiu. O importante é que esses eventos estão trazendo a questão da sucessão das empresas. Não é privilégio nosso, mas a distribuição, mundialmente, é composta de empresas familiares, em sua maioria.

Latin Chemical - Esse assunto já vêm sendo discutidos desde o evento anterior.

Medrano - Nós abrimos o diálogo e trocamos experiências. Eu até pediria aos empresários que levassem os seus sucessores, pois é importante que eles comecem a se preparar para amanhã assumir as funções de direção das suas empresas. Eu tenho recebido questionamentos sobre o nosso evento diferir de outros, que são eminentemente comerciais. O Ebdquim não é um evento comercial e sim um evento de relacionamento, de troca de experiência, de conhecimentos, e foi para isso que ele foi criado, consolidando tudo aquilo que a Associquim fez. Ele acontece a cada dois anos, o que é uma tendência. Quanto ao local, temos procurado fazer fora de São Paulo para tirar o empresário do seu meio, pois se ele está na sua cidade, ele não se desliga. É importante que ele possa, ao sair de São Paulo, concentrar-se ao máximo naquela finalidade. E, também, estamos procurando fazer uma integração da família, afinal de contas se as empresas estão ligadas, nada mais importante do que a participação da família.

 
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